Início Política As pioneiras invisíveis: mulheres negras na luta pela democracia em Brasília
Política

As pioneiras invisíveis: mulheres negras na luta pela democracia em Brasília

258

Enquanto os icônicos prédios modernistas do Plano Piloto de Brasília eram erguidos, um grupo de mulheres negras se mobilizava em busca de direitos políticos, melhores condições de vida e reconhecimento em uma cidade que historicamente as marginalizava. O dossiê “O lugar das mulheres pretas na construção de Brasília nas décadas de 70, 80 e 90”, iniciativa do Núcleo de Arte do Centro-Oeste (Naco) e coordenado pela consultora chilena Paloma Elizabeth Morales Arteaga, reúne relatos de sete dessas lideranças, baseados em entrevistas e pesquisas em documentos raros do Arquivo Público do Distrito Federal. O material destaca a atuação delas durante a fundação da capital e o processo de redemocratização, revelando como elas enfrentaram a segregação espacial e racial em uma Brasília projetada para ser seletiva, afastando trabalhadores negros para periferias como Ceilândia e Taguatinga, conforme explica a geógrafa citada por uma das entrevistadas, Milton Santos.

Jacira da Silva, jornalista de 74 anos que chegou à cidade em 1960 aos 9 anos, relata sua participação em reuniões clandestinas inspiradas na estratégia de quilombos, como as do grupo Zumbi dos Palmares, e sua contribuição ativa para a Constituição Federal de 1988. Politizada durante a Ditadura Militar, próximo à Universidade de Brasília (UnB), ela ingressou no Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNUDF) em 1981, após atuar no Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB), onde combatia o mito da democracia racial. Jacira enfatiza as dificuldades enfrentadas dentro dos próprios movimentos, onde demorou para ser respeitada como mulher negra militante, e descreve o racionamento de alimentos e as manifestações da época como catalisadores de sua consciência política.

Outras narrativas no dossiê incluem a de Maria Luiza Júnior, fundadora do MNU-DF, que critica o foco elitista de organizações anteriores como o Instituto Nacional Afro-Brasileiro (INABRA) e destaca o papel do MNU em preservar a juventude negra. Já a assistente social Cristina Guimarães questiona o feminismo hegemônico por ignorar as experiências de mulheres negras, indígenas e trabalhadoras domésticas, o que levou ao Encontro Nacional de Mulheres Negras em 1988 e à criação do Coletivo de Mulheres Negras do DF. Esse período, coincidente com a Constituinte e o centenário da abolição, impulsionou mobilizações contra a “falsa abolição” e o surgimento de entidades como Criola, Geledés e o grupo Mãe Andresa, fortalecendo a resistência antirracista que persiste até hoje.

Conteúdos relacionados

Fila de eleitores na Escola Classe 02 do Itapoã em Brasília
Distrito FederalItapoãPolítica

Eleitores enfrentam filas de mais de 3 horas na Escola Classe 02 do Itapoã em 2026

Eleitores enfrentaram longas filas e ritmo lento de votação na Escola Classe...

KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
Distrito FederalPolítica

Idosa de 73 anos com câncer sai do hospital para votar no DF

Maria de Lourdes Pereira, aposentada de 73 anos em tratamento contra câncer...

Complexo hospitalar público em Brasília representando irregularidades na saúde do DF
Distrito FederalPolítica

Gabriel Magno defende o fim do Iges-DF e denuncia irregularidades na saúde

Gabriel Magno, candidato à reeleição de deputado distrital pelo PT, defendeu o...

Sala de injeção letal com pentobarbital em prisão brasileira
MundoPolíticaSegurança

Christa Pike sobrevive a duas doses de pentobarbital no Tennessee

A tentativa de execução por injeção letal de Christa Pike fracassou na...